A Dona Desceu

Atualizado: 29 de Jan de 2020

Tudo caminhava para este fim, eu nem sabia, mas a profecia se cumpria. As nuvens que por dias iam e voltavam se amonturam de uma vez só naquela manhã. Raiva emanou. Os primeiros trovões se ouviam ainda baixinhos, porém vibrantes, era a Dona se preparando pra descer, desta vez não ia voltar de mãos vazias. A manhã se escureceu. Ao meio dia as folhas do chão já se erguiam, vapor quente subia da terra, o vento forte começou a soprar, não haveria perdão nem missa de sétimo dia. A lágrima primeira correu quente, aos passos da nova fúria que brotará do solo quente e fecundo da terra, agora já sobre as posses da Dona, da soberana, não mais triste, mas mordida pela raiva. Por volta das quatorze horas o primeiro raio rasgou o céu, e Ela desceu triunfante, no entanto em passos leves, não houve espaço para recuo, não faltou brado e emoção. Coração a mil, fogo descia do céu. Com sabor de canela a chuva caiu, as posas eram o amontoar divino das dores que se acumularam por retidão. Tirou o véu para olhar a olhos nus sua obra de arte, as árvores se retorciam, o vento uivava e a chuva derrubava paredes. Arrastou toda a insegurança, medo e receio, trouce o gozo e liberdade a ponta da língua. Faceira, essa Dona saiu para dançar aos sopros da tempestade, correu, brincou e se fez Mulher de novo, feito criança que foge de casa, a cigana da noite, a moça dos desejos veio pra cantar. Nunca vi tanta beleza no desastre, nunca vi tanta certeza na duvida, confusão na solução e coração na boca a gritar. Caiu chuva, caiu árvore, caiu casa, caiu a ficha. Era de um bom gosto tanta tragédia, que era até pecado reclamar; Não vi senão, o direito de aproveitar, já que estava ali, que comesse e se lambuzasse.  Tudo aconteceu da forma que o Destino marcará, não foi em vão que a seca pediu pra chuva descer, pra Dona cantar e o caos se instalar, era pra ser assim, tudo acontece no seu tempo, na sua sacra maneira. Ela desceu, e desceu mesmo, ela mandou a rima, fez cordel e dançou com o boi como tinha que ser.  Os tambores tocaram, Ela pegou o seu bandeiro e voltou, tomou pose de seu lugar e agora vai reinar, pois já se cumpriu a profecia e assim ela pode descansar.

Que venha essa primavera morena!

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